Um passarinho pousa no arame como quem conhece o peso do mundo e, ainda assim, não perde a delicadeza do próprio nome.
O arame farpado foi feito para ferir, para marcar território, para ensinar medo a quem tenta atravessar. Ele carrega a linguagem dura das cercas, o aviso frio do “não passe”, a memória de quem aprendeu a defender o que tem com espinho e distância.
Mesmo assim, o pássaro não negocia sua natureza. Ele mede o passo, escolhe o ponto de apoio, ajeita as garras com precisão, respira. Não se trata de imprudência, trata-se de sabedoria. Quem sabe voar entende limites, reconhece riscos, não se entrega ao pânico, não transforma ameaça em sentença.
Há dias em que a vida parece uma cerca inteira, com farpas apontadas para dentro da gente. Palavras que cortam, olhares que diminuem, lembranças que voltam com unha. Nessa hora, o coração se pergunta se vale continuar. A alma, no íntimo, responde com gesto: pousa, reorganiza, aprende, segue.
Voar também é isso. Não apenas céu aberto, também travessia por cima do que tenta prender. Não apenas asas, também discernimento. Não apenas sonho, também coragem prática. Quem aprendeu a voar escolhe o que toca, escolhe o que não carrega, escolhe o que deixa no chão.
O arame continua arame. A farpa continua farpa. A diferença está na consciência que não se curva. O pássaro não discute com a cerca; ele se prepara para o próximo salto. Ele guarda o corpo inteiro, protege a vida por dentro, espera o instante certo, então abre o peito para o vento.
Quando a liberdade mora na alma, a prisão perde autoridade. O medo pode gritar, a estrada pode estreitar, a noite pode pesar. O que sabe voar encontra passagem, encontra altura, encontra Deus no movimento calmo de quem não desiste de ser luz.
Autor anônimo

